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Dilema Nortista & Sulista (Alex Branco)
No início deste mês realizamos uma consulta missionária onde reunimos missionários brasileiros servindo em diferentes países da Europa, América do Norte e até mesmo Índia e Norte da África. Os assuntos discutidos foram bem diversificados e ao final do evento percebemos que o resultado foi positivo. Enquanto estávamos juntos e compartilhávamos nossas experiências, quer em grupo ou de forma individual, algo que me chamou a atenção foi ouvir as dificuldades enfrentadas por missionários sulistas (hemisfério sul) de serem aceitos e incorporados pela sociedade e até mesmo pelas igrejas nortistas (hemisfério norte). Na realidade, esse é um assunto sobre o qual sempre ouço falar e nos últimos anos tenho até mesmo experimentado algumas doses desta dificuldade de aceitação por parte de nossos irmãos nortistas.
 
A igreja nortista tem em seu passado uma história de missões. É quase impossível medir a dimensão do impacto das igrejas nortistas na obra missionária nos países sulistas. Países como Inglaterra, Noruega, Suécia, Alemanha, Estados Unidos da América e outros, tiveram um papel muito importante na evangelização dos países sulistas. Não é preciso entrar em detalhes históricos para lembrar que a presença missionária nortista foi sempre visível no sul. No entanto, nos dias de hoje a igreja sulista tem tomado uma postura missionária e seu alvo tem sido não só seus vizinhos sulistas, não ou pouco alcançados, mas também os países pós-cristãos do norte, que se afundam em uma mornidão espiritual, se afogando em paganismo e ceticismo religioso. Atualmente a presença missionária sulista no norte tem se tornado cada vez mais visível.
 
A presença missionária sulista no norte ainda é algo que precisamos nos acostumar, ou melhor, a aceitar. Uma região que por séculos se acostumou com a idéia de enviar missionários para muitos países sulistas ainda não conseguiu enfrentar a realidade de ter de lidar com o recebimento de missionários sulistas na sua comunidade e até mesmo nas suas igrejas.
    
Na realidade, as necessidades espirituais do sul e do norte são as mesmas. Necessidades de salvação e de um relacionamento pessoal com o Deus. As diferenças culturais enfrentadas pelos missionários sulistas que ministram no norte são as mesmas dificuldades culturais enfrentadas pelos missionários nortistas que ministram ou ministraram no sul. A maior e mais agravante diferença é a econômica, pois as igrejas sulistas são mais pobres e limitadas economicamente. A diferença pode parecer pouca, mas não é, principalmente considerando que no norte a influência materialista e consumista é muito grande.
    
Lemos na passagem de João 1:46: “Perguntou Natanael: "Nazaré? Pode vir alguma coisa boa de lá?" Disse Filipe: "Venha e veja”. Havia um grande desprezo por Nazaré naqueles dias, por causa da sua falta de cultura, seu dialeto rude, e seu contato com os gentios. O desprezo era tal que Natanael duvidava que qualquer coisa boa poderia sair de lá. No entanto, foi nesta cidade que nosso Senhor viveu a maior parte de sua vida e com a qual Ele se identificava ao ponto de ser chamado de Jesus de Nazaré ou Nazareno (Mateus 2:23). Durante a consulta missionária e enquanto ouvia meus irmãos sulistas compartilhando suas experiências missionárias no norte e da rejeição que algumas vezes enfrentam por parte de nossos irmãos nortistas vieram à minha mente as escrituras acima.
    
A igreja nortista terá de aprender a lidar com a força missionária sulista que só tende a crescer. As igrejas no sul estão crescendo e a consciência missionária está aumentando e com isso muitos vocacionados estão se preparando para servir no campo missionário além fronteiras e uma boa porcentagem desses obreiros virão para o norte. Minha preocupação é ver um afastamento das igrejas nortistas destes obreiros quando aqui chegam. Estes obreiros são olhados como “nazarenos” e inferiores economicamente e culturalmente impedindo assim o avanço do evangelho no hemisfério norte.
    
As agências missionárias sulistas tais como as denominações e igrejas do sul devem procurar se relacionar com a igreja do norte e buscar integração e parceria. Caso esse passo não seja tomado os missionários do sul sofrerão isolados e com isso o esforço missionário terá seu impacto muito limitado. Também cabe a igreja do norte acolher os missionários sulistas, facilitar a sua integração na sociedade e igreja, buscar parcerias com estes obreiros, que quer eles queiram ou não continuarão chegando no norte, e também de serem hospitaleiros com seus irmãos.
    
A igreja nortista deve ter em mente que um dia ela foi uma força missionária no sul e ainda é em alguns países, que ali foram acolhidos com carinho, que nossas igrejas foram abertas para acolhê-los e que agora chegou a hora deles retribuírem o carinho. É difícil lembrar quantos missionários nortistas já hospedamos em nossa casa e igrejas no Brasil. Haverá dificuldades? Sim! Tal como houve dificuldades no sul ao receber tais obreiros nortistas. Como exemplo posso mencionar que de todos os obreiros nortistas que trabalharam no Brasil e com os quais tivemos contatos, poucos foram os que falaram português com fluência e sem erros gramaticais graves. Foram inúmeras as vezes que ouvi missionários nortistas pregando em nossas igrejas no sul se referindo aos homens usando o pronome no feminino. O que poderia ser constrangedor e ofensivo para os homens em nossa cultura do sul, deixamos passar desapercebido, pois entendemos que as limitações desses obreiros do norte no que diz respeito à língua e a cultura não diminui o valor do conteúdo da mensagem que eles tem para nos comunicar. Haverá dificuldades de caráter em alguns obreiros? Sim! Mas isso não deve ser o fator que deve nos levar a fechar as portas para outras pessoas. Para evitar constrangimentos não vou mencionar aqui casos específicos, mas o número de obreiros nortistas que deram mal testemunho moral no sul não é pequeno. Eu mesmo presenciei alguns casos muito tristes, porém, entendemos que não podemos generalizar. Dificuldades existirão, mas podemos minimizar essas dificuldades se procurarmos integração e parceria entre a igreja do norte e a igreja do sul.
    
Este breve artigo não tem por objetivo servir de estudo missiológico, por isso é simples, mas é um desabafo que faço em prol dos meus irmãos sulistas para que sejam honrados, respeitados e abraçados por meus irmãos nortistas. Nossa integração e parceria é muito importante para a reevangelização do hemisfério norte. “Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou. Quem recebe um profeta na qualidade de profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo na qualidade de justo, receberá a recompensa de justo. E aquele que der até mesmo um copo de água fresca a um destes pequeninos, na qualidade de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá a sua recompensa.” - Mateus 10:40-42.

E-mail: pr.alexbranco@gmail.com
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